Vivi era uma cachorrinha poodle. Não era puro sangue e por isso ficou três meses sozinha na gaiola do “pet shop” até que minha nora decidisse comprá-la. Mas ao invés deste exílio minar sua alegria de viver, por uma transformação inusitada, Vivi transformou todo seu tempo de abandono numa energia inesgotável.
Talvez por ter um coração meigo e valente. As boas heranças genéticas fazem milagres nas desventuras.Quando meus netos chegavam com ela no domingo, parecia que entrava porta adentro um pequeno furacão.
Poucos meses depois minha nora resolveu cruzá-la e chegando um dia em sua casa encontrei-a com quatro poodles, branquinhos como ela, limpinhos e saudáveis, sugando seus mamilos. Mas ela? Toda suja de sangue, de terra, sofrida.
Vocês imaginam que ela tomou dois litros de leite que lhe oferecemos?
E, com a maturidade advinda precocemente com a maternidade, deixou-nos tranquilamente lavá-la, trocar os panos sujos em que estava e recolocar seus filhotes de volta. Aí ela dormiu. Cena sublime, vê-la dormindo com os quatro filhotes sugando-a afoitamente.
Aprendi com Vivi, no entanto, que o sentimento de maternidade termina com o crescimento da cria. Pouco a pouco os filhotes foram indo embora e ela não mostrou qualquer tristeza. Sua missão estava cumprida. E ela retomou seu dia a dia com a mesma energia de antes.
Mas na vida nada permanece. Os acontecimentos vem como os bombardeiros nos tempos de guerra, obrigando-nos a buscar novos refúgios e comportamentos. Minha nora separou-se do meu filho e Vivi acabou tendo que vir para minha casa.
Vejo ainda meus dois netinhos de 4 e 6 anos, trazendo-me Vivi nos braços e pedindo-me que cuidasse dela. Ainda está nítido em minha memória os olhos de duas crianças que pedem socorro para sua avó para que o estrago que estava sendo feito na vida deles pudesse ser amenizado por este resgate.
Não pude recusar, ainda que ter uma cachorrinha arteira e sem treino para viver dentro de casa não estivesse bem nos meus planos. É que eu não sabia que a partir deste dia, eu teria uma companheira inseparável durante 12 anos.
É bem verdade que, como ela fazia suas necessidades onde queria, e eu já estava atendendo meus pacientes em minha casa, a permanência dela foi ficando impossível e acabei enviando-a para a casa de minha cozinheira. Também lá a situação ficou impossível e seu marido passou a levá-la em suas viagens de caminhão, até que um dia Vivi chegou em casa entre a vida e a morte.
Estava com a doença do carrapato em estado avançado e muito desnutrida. A veterinária não mostrou muita esperança de recuperação. Pensei em sacrificá-la. Mas, quando fui vê-la em sua caixa fechada e chamei: Vivi!. ela sacudiu tão fortemente o rabinho que eu disse à veterinária:” Faça tudo que for preciso”.
Embora os exames laboratoriais tivessem acusado rins muito danificados e anemia, dois dias depois pude levá-la para casa. Conversei seriamente com ela:” Vivi , você vai ficar, mas vai aprender as regras da casa”. Pode parecer inverosímil, mas nunca mais ela deixou de fazer suas necessidades no lugar prescrito e não mais fugia de casa. Seu apego por mim transformou-se em adoração e passei a conservá-la comigo enquanto atendia meus pacientes. Como ela ficasse imóvel a meu lado, não houve muitas resistências, apesar da surpresa inicial deles, e ela pouco a pouco passou a fazer parte do “setting”.
Vivi adorava andar de carro. Começamos a chamá-la “Maria Gasolina” e ela ia para todo lado conosco. Mesmo à praia ela foi várias vezes. Dormia em sua caminha ao lado da minha cama e despertava-me uma ternura enorme vê-la entregue com o corpo alongado e a cabecinha apoiada na borda da almofada.
Como é possível verificar, Vivi conquistou-me. Teve ainda três crias, mas de cachorrinhos castanhos. Os laços entre nós ficavam cada vez mais fortes e dávamos uma à outra um sentimento de aconchego e de prazerosa companhia. Até que um dia achamos uma cachorrinha de 28 dias, num terreno baldio, ainda buscando algumas gotas de leite que sua mãe, muito enfraquecida, deixava que ele sugasse, com mais dois irmãozinhos .Miúda, vira-lata cor de caramelo, pusemos-na em uma caixa e fomos ao veterinário. Os carrapatos saltavam da caixa, de tantos que eram. Fizemos tudo que era preciso para que ela recuperasse a saúde e ela começou a engordar com enorme velocidade.
Em pouco tempo tínhamos uma destruidora dentro de casa: sapatos, lençóis, móveis, roupas eram destruídos com tal rapidez que não conseguíamos impedir. Com isso, Vivi ficou de lado e aí eu descobri o quanto ele era ciumenta.
Quando, após chamarmos um César Milan de Ribeirão Preto, que não era um “dog whisperer mas era bom e e Lucky interrompeu sua caçada titânica a objetos destrutíveis, as duas pegaram a doença do carrapato outra vez. E aí o que eu temia aconteceu: descobrimos pelos exames que Vivi tinha um sopro no coração. Ela estava com 13 anos e acreditamos que com um bom acompanhamento ela ainda sobreviveria uns bons anos. Não obstante toda nossa dedicação, ela começou com uma tosse que não cessava.
Não podia mais levá-la comigo ao consultório e as noites eram difíceis.
Eu não queria que ela sofresse, mas nenhum remédio parecia resolver. Mansamente, ela aceitava todas as pílulas que eu colocava em sua garganta, mas eu sentia o seu sofrimento.
Após um domingo muito difícil para ela, decidi que a levaria ao seu cardiologista para um parecer. Se não houvesse mais nada a fazer, eu escolheria a eutanásia. Estava desesperada diante da sua dor e de sua tosse incessante.
Ela não conseguia mais andar.O médico intercalou-me:” O que você quer fazer?”
Com as lágrimas já correndo em meus olhos, tomei a decisão de aliviá-la. Após a primeira injeção, suas dores atenuaram-se. Sacudiu o rabinho como antes e olhou-me com olhos úmidos de gratidão. Suavemente tirei-a do meu colo e coloquei-a na mesa. Outra injeção foi aplicada, já com o soro mortífero.
Docemente ela fechou os olhinhos e foi parando de respirar. Os soluços saiam alto do meu peito. Não conseguia conter-me. “Acabou”, disse o médico. Mas quando perguntou-me se queria deixá-la para ser posta no lixo, recusei. Carreguei-a docemente em meus braços e levei-a para casa em sua caminha. Lá, coloquei-a em uma caixa de madeira forrada de couro, envolvi tudo com plástico e o jardineiro fez um buraco no jardim, colocou nele a caixa contendo seu pequeno seu corpinho.
Cobriu tudo e plantou antúrios no lugar aberto.
Durante muito tempo eu me sentava ao seu lado, tentando aliviar a saudade.
Pensava que quando Freud dizia não compreender o apego dos seres humanos aos seus objetos de amor perdidos, talvez ele não estivesse em boa perspectiva que lhe permitisse refletir sobre a qualidade de certos vínculos amorosos, que são muito difíceis de desenvolver, tal a qualidade que exige dos dois participantes. O verdadeiro amor é muito raro.
Não obstante, alguns meses depois, estava passando em frente a um “Pet Shop” e li num cartaz:” Temos filhotes”. Algo me fez parar e entrar. Tive um susto: 4 filhotes de LLasa Apso, talvez os cachorrinhos mais feios do mundo, com suas carinhas pretas e os olhos esbugalhados escondidos debaixo de uma ampla pelagem, ali estavam a espera de serem vendidos. Do meio deles, sai um e vem em minha direção.
Pego-o, e algo se passa em meu coração. Mas eu não queria ainda substituir Vivi. Não obstante, após uma semana, voltei e ele estava ainda lá.
Trouxe-o para casa. E se minhas lembranças com Vivi serão para sempre únicas, gosto de pensar magicamente que foi ela que me encaminhou para encontrar Tái. A travessia de Vivi terminara. A minha ainda não. É preciso continuar.
