Esta história se passa nos idos de 1948, no sul da Franca, em uma cidade balneária, famosa pelo castelo romano em ruínas e por um hotel imenso onde a Rainha Vitória deixava a Inglaterra a fim de passar o inverno aproveitando a beleza e a salubridade da região, assim como as fontes de água medicinais das cascatas que desciam morro abaixo. A cidade chama-se Hyères, bem à beira do mar Mediterrâneo, e é envolta por salinas e cercada por três ilhas de grande beleza: Ilha do Levant Porqueros e Porquerolles, chamadas as ilhas de ouro: Les Îles D´or. Nestes anos penosos do após guerra, seus habitantes cuidavam para que franceses de outras regiões não pudessem instalar-se ali, destruindo aos poucos seu paraíso.
cachorra darling
Bem ao norte da França, em Brest, na Normandia, vivia um casal em torno de seus trinta anos, que sobrevivera aos ataques entre aliados e alemães e que haviam gerado uma criança em 1939, robusto, mas com sérios problemas respiratórios. O médico, preocupado com o menino, recomendou irem para o sul da França, ensolarado e quente.
Decidiram mudar-se. O pai era um grande chefe de cozinha, e com muita experiência em viagens de navio como responsável pela alimentação a bordo. Assim, conseguiu um trabalho na marinha, assediada em Hyères. Tendo facilidade de se relacionar, ficou logo amigo do prefeito e lhe preparava grandes jantares.
A contragosto dos demais altos proprietários da cidade, concedeu a este homem licença para comprar um terreno e construir um hotel e um restaurante. Este restaurante ficou logo famoso e o casal trabalhava dia e noite para suprir as demandas dos frequentadores. Mas o filho não conseguia sair do leito e ficava, aos 9 anos, a ler tudo que podia, sem nunca sair para brincar. Foi entristecendo. Os pais, inquietos perguntaram-lhe se gostaria de algo. E ele prontamente respondeu que sim, queria um cachorro.
Feito o pedido, o desejo não tardou a ser realizado. O pai comprou uma cachorra ainda filhote, a quem o menino deu o nome de Darling,já que ela viera da Inglaterra. Esta cachorra, como facilmente deduzimos, tornou-se sua companheira inseparável, e não o deixava mesmo na hora de dormir, acomodando-se a seus pés.
Era uma cachorra de caça, com os pelos cinzentos e duas manchas marrons sobre as patas dianteiras, combinando com a cor das orelhas. O nariz afilado, característico da raça fazia sobressair seus olhos inteligentes e alegres. Como houvessem poucas construções na época, era deixada livre e usava sua energia natural de caçadora “pointer” para embrenhar-se nas pequenas colinas que bordeavam a praia. A vivacidade da cachorra contaminava o menino, e ele divertia-se vendo-a correr pelos arredores do hotel.
O tempo passou, o menino ficou mais forte, saia com a cachorra para passear pelas estradas de terra. Ele ainda não corria, mas Darling era uma corredora nata. Não desmentia sua raça “Irish Setter”, raça de cães caçadores e farejadores. Não podia ver algo em movimento que queria alcançar. E, para sua infelicidade, as pessoas em bicicletas ou motos que por ali passavam assustavam-se com sua velocidade e caiam por terra, às vezes machucando-se. O pai acudia pressuroso todas as vezes. Levava os pobres acidentados para dentro do hotel, servia algo para beberem e eles repartiam.
O número de acidentados aumentava e o pai decidiu mantê-la em uma área fechada atrás do hotel. Nada havia a fazer. Ela havia encontrado uma forma de escapar e correr pela estrada. Como poderia ela mudar características ancestrais, impressas em seu corpo e em sua alma?
Até que um dia, um rapaz e sua namorada passeavam de moto e Darling resolveu apostar corrida com eles. O rapaz assustou-se e caiu da moto, levando a namorada junto. Machucaram-se bastante. E a moto não sofreu menores danos. O pai do menino, homem de caráter, pagou todas as despesas de hospital e do conserto da moto. Mas decidiu que não queria mais ficar com uma cachorra tão perigosa.
Poucos dias depois, hospeda-se no hotel uma família do norte da França, perto da fronteira com a Bélgica, o que significa aproximadamente 900 Km de distância de Hyères. Eles aceitam levar a cachorra com eles, e o menino nada pôde dizer diante da decisão paterna. Este ficou alheio ao sofrimento do filho e este silenciou sua dor.
E assim foi Darling, de automóvel, para a casa dos novos donos. Durante meses eles tentaram segurá-la mantendo-a presa, pois sempre tentava escapar. Até que um dia ela conseguiu. Não tenho a menor ideia de como ela atravessou a França. Se apanhou, se encontrou almas caridosas que a alimentaram, guiada por seu faro de caçadora, ela foi seguindo as trilhas caminho a fora, sem descanso, sem incertezas. Ela sabia o que queria: reencontrar seu antigo dono. Não foram dias, foram meses de viagem em que corajosamente escapava dos perigos e ia arranjando algo para comer.
Um dia, o menino estava no quintal e olha espantado um vulto esquelético que se aproxima dele. Como ela estava magra! Suas patas não tinham mais proteção e sangravam.
“Darling?”, murmurou ele incrédulo. Abraçou-a como se abraça o objeto de amor reencontrado, após tê-lo dado perdido para sempre. Nos olhos de Darling havia alegria e cansaço. Desnecessário se torna descrever todos os cuidados que ela recebeu. O amor dela e do menino, marcados pelo heroísmo, era uma espécie diferente de amor, que só as grandes almas alcançam.
Talvez Deus tenha criado almas como a de Darling como modelo do verdadeiro amor.
É claro que ela ficou ali, o menino transformou-se em um adolescente saudável e esportista e depois em um homem. E ela acompanhava este desenrolar do tempo, sempre próxima a ele, também envelhecendo aos poucos. E aí a história acaba.
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Este conto é dedicado a Giovanna Bartucci, grande amiga e estimuladora!
Ribeirão Preto, 24 de fevereiro de 2022.